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Destacam-se aqui alguns Cabecenses já falecidos que, através da sua acção social, cultural ou profissional, contribuiram para o desenvolvimento e prestígio da freguesia. Muitas e distintas figuras merecem, de certeza, um destaque nesta página. Estamos abertos à opinião dos leitores quanto aos cidadãos a incluir neste espaço. Escreva-nos.          

 

João Francisco  
-  "O Mestre"

Nasceu na freguesia de Cabeça em 11 de Fevereiro de 1882. Assentou praça no Regimento de Infantaria nº 12 de Trancoso em 23 de Julho de 1902. Terminada a recruta, regressou à Cabeça, na altura sem professor. Ciente da gravidade da situação, iniciou por sua conta e risco, a alfabetização dos seus conterrâneos. Durante o dia, trabalhava. À noite, reunia os "alunos" em sua casa. João Francisco era um autodidacta, muito culto. Foi graças ao seu esforço e talento que muita gente aprendeu a ler, escrever e contar. Era um verdadeiro "Mestre".
Em 5 de Dezembro de 1926 foi nomeado Vogal da Junta, em substituição de António Marques Lopes "por andar a tratar dos papéis para embarcar". A Junta ficou, assim, formada pelo presidente Manuel Francisco Mendes, sendo vogais Manuel Gonçalves d'Abrantes e João Francisco, mantendo-se em funções até 1-4-1934. Das obras realizadas por esta junta, destacamos:

Em 27-07-1927 iniciaram as obras do novo cemitério com serviço braçal da freguesia, tendo ainda recebido do Vice-Presidente da Câmara de Seia, Luiz Ferreira Mathias, um subsídio de 2.000$00. Em 1 de Janeiro de 1928 receberam do Presidente da Câmara de Seia umas portas velhas para o Cemitério, as quaes foram concertadas na oficina de Sazes. Em 4-12-1932, mandaram uma representação à Junta Autónoma de Estradas a fim de conseguir o estudo do Ramal para ligar a povoação à estrada nacional nº 442. Em 5-2-1933 receberam parecer favorável da JAE. Em 5-3-1933, colocaram vários homens à disposição da JAE, para auxiliarem o engenheiro no estudo da estrada. Em 2 de Abril de 1933, elaboraram um documento abonatório da seriedade e comportamento do Dr. António Gomes, médico de Loriga, que estava a ser objecto duma sindicância. Em 2-7-1933, recusaram-se a pagar uma verba suplementar pedida pelo engenheiro para dar a um ajudante que lhe ajudasse a fazer a planta da estrada para ser enviada mais cedo para Lisboa. A resposta foi: " Como não temos dinheiro, nada lhe podemos dar e esperamos que faça todo o serviço. O que temos é de pagar a tinta ao Sr. Abreu e ao José Augusto os dias que andou no estudo com o engenheiro. Defensor da família como base social de apoio em tempos difíceis, o Mestre granjeou o respeito e consideração de toda a povoação.
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Fontes (documentais): Actas da Junta de Parochia de Cabeça, de 02-01-1914 a 01-04-1934; Caderneta Militar de João Francisco

 

 

José Francisco Marques
-  Autarca

Nasceu na freguesia de Cabeça em 13.12.1915. Foi nomeado Presidente da Junta em Janeiro de 1960, tendo como secretário António Brito Abrantes e tesoureiro Albino Francisco Lages. Esta Junta notabilizou-se pela sua capacidade de trabalho em equipa. No exercício do seu mandato, a freguesia conheceu importantes melhoramentos. Os de maior impacto foram a construção dum edifício para a sede da Junta(1), a inauguração da energia eléctrica e a celebração dum acordo com a Junta de Loriga clarificando o limite geográfico entre as duas freguesias.
ASSIM:
Em Janeiro de 1961 foi iniciada a construção do edifício da Junta. Em 23 de Janeiro de 1961 a Câmara de Seia publicou o projecto do ramal eléctrico de Cabeça. A electricidade foi inaugurada em Novembro de 1962.
Em 16 de Junho de 1962, o Presidente da República Almirante Américo Romás promulgou o Decreto nº 44 401, colocando um ponto final nas dúvidas sobre a linha divisória entre Loriga e Cabeça, após acordo celebrado entre as duas Juntas de Freguesia.
(Ver Diário do Governo)

José Francisco Marques foi, também, cidadão benemérito. A ele se deve a aquisição dum órgão para a igreja, do guarda-vento para a mesma e do lambril com painéis pintados à mão. Como reconhecimento pela sua obra, foi deliberado atribuir o nome “Avenida José Francisco Marques” ao percurso entre o Bairro da Escola e o Largo da Senhora de Nazaré, em Cabeça. Faleceu em 31 de Janeiro de 2000.
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(1) O edifício é hoje ocupado pelo Centro de Apoio à 3ª Idade, depois de remodelado. A Junta de Freguesia transferiu-se, entretanto, para um prédio de xisto tradicional adaptado à função.

 

 

José Luiz Pinto
-  Autarca e Ajudante do Registo Civil

Nasceu na freguesia de Cabeça em 25 de Setembro de 1883. Era um dos nove filhos do conceituado alfaiate Manuel Pinto da Silva. Sua mãe, Benedita Rosa Marques, era uma especialista em bordados. Detentor duma esmerada educação, cedo revelou invulgar propensão para a cultura.
Foi responsável pelo Posto do Registo Civil da freguesia de Cabeça, lavrando na aldeia os registos de nascimento, óbito e casamento, emitindo certidões, cédulas pessoais e cobrando os respectivos emolumentos. Escriturava os livros de registo com plena autonomia, em consonância com a Conservatória do Registo Civil de Seia. O Posto do Registo Civil funcionava no rés-do-chão da sua casa. Exerceu o cargo até falecer. Do seu currículo consta, ainda, a profissão de comerciante retalhista. Em 1912 já escriturava o Livro de Caixa, demonstrando invulgar profissionalismo. Com uma caligrafia aprimorada, lançava o “Deve” e o “Haver”, apurando o “Balanço” mensal com notável mestria.
Foi Presidente da Junta de Freguesia nos períodos compreendidos entre 15-1-1918 e 25-06-1923 e, ainda, entre 02-01-1938 e 31-12-1945. Exerceu o cargo com uma política de influência, nomeadamente nos mandatos do Presidente da Câmara Dr. António Borges Pires, sendo vice-presidente o Dr. António da Cruz Ventura. Deixou um registo impressionante de correspondência expedida e recebida, livros de actas e documentação avulsa. Do seu exercício, destacamos:
Em 1939, após muita luta, conseguiu restabelecer o funcionamento do ensino escolar em Cabeça, que estava suspenso por falta de instalações convenientes. Assim, em 8 Março de 1939, o Diário do Governo nº 55 publicou a Portaria que manda construir o Edifício Escolar de Cabeça. Por Despacho de 20 de Setembro do mesmo ano, o Ministro da Educação incluiu essa construção na rede escolar. Oito dias depois (1-10-1939), entrava em funções a professora oficial Purificação de Jesus Gomes, após obras de restauro das antigas instalações por ele implementadas.
Em Dezembro de 1940, José Luiz Pinto promoveu a remoção das ossadas do cemitério da Igreja Velha para o cemitério novo. Em Julho de 1941 reestruturou o espaço do antigo cemitério, calcetando-o e alinhando o muro, daí resultando o Adro da Igreja Velha de São Romão, que mais tarde voltaria a ser remodelado. Em Maio de 1942 foi iniciada a ligação da estrada Portela do Arão – Cabeça, obras que só foram interrompidas em Outubro de 1944. Em 4 de Outubro de 1942, mandou tirar as fotografias destinadas ao Estudo Monográfico da Freguesia de Cabeça, a pedido do Capitão Dr. António Dias, colaborando com ele no referido trabalho. A partir de 1943, passou a incluir no orçamento da Junta a contratação de um homem para tratar do antigo relógio de pesos da torre da Igreja de São Romão, a fim de controlar o giro das águas do regadio. Em Outubro de 1945, mandou ampliar a rua junto à Capela de Santo António, expropriando terrenos, alinhando muros, cortando fragas, encanando águas e calcetando toda a zona envolvente até à Casa do Torgal.
José Luiz Pinto gozava de enorme prestígio na região. Acerca dele, escrevia António Santos, em documento datado de "Barriosa 10-11-1932": "Homem competente, honesto e honrado. Numas eleições não há quem o vença, pois é a criatura de mais destaque e mais bem vista na Cabeça”.
Faleceu em 29 de Junho de 1946.

 

 

Mário Martins Lages
-  Autarca

Nasceu na freguesia de Cabeça em 18 de Janeiro de 1949. Foi especialista de rádio-transmissões na guerra colonial, em Angola. Foi profissional de pastelaria em Lisboa, Seia (Pastelaria Paris) e, também, no Luxemburgo. Era perito na sua arte, dominando truques e segredos da melhor pastelaria.

Foi Presidente da Junta de Freguesia de Cabeça em 3 mandatos consecutivos, de 1986 a 1997, eleito nas listas do Partido Socialista. No ano de 2001, integrou, mais uma vez, a lista socialista às eleições autárquicas, posicionado em 5º lugar. O PS ganhou as eleições e Mário Lages foi eleito Presidente da Assembleia de Freguesia, cargo que ocupou até falecer. Desde 2004, era, também, Vogal da Direcção do Centro de Apoio à 3ª Idade de Cabeça.

Da sua gestão autárquica, destacamos:
Foi pavimentada a estrada de ligação ao Casal do Rei, uma obra ansiada há muito tempo. Foi um dos fundadores da Junta de Agricultores, com o objectivo de reconstruir a Levada Comunitária entre as freguesias de Cabeça e Loriga. Esse objectivo viria a ser plenamente atingido, com recurso ao financiamento do IFADAP no montante de 39 mil contos e à mão-de-obra recrutada na população de Cabeça. É de salientar a coragem das mulheres que carregaram às costas os materiais, ao longo do arriscado percurso da levada. As obras decorreram entre os anos de 1995 e 1998. Estas acções proporcionaram um aproveitamento total da água do regadio de Cabeça, sem desperdícios, numa Levada Comunitária das mais extensas do País, com um percurso de 7 km.

Mário Lages tinha um trato fácil, sabendo definir estratégias de persuasão junto do poder municipal. Cultivou, sempre, uma relação dinâmica de conjugação de esforços com o Presidente do Município, Eduardo Mendes de Brito. Detentor duma personalidade capaz de gerar consensos, soube prestigiar as equipas com quem trabalhou, muito contribuindo para o progresso da freguesia. Os Órgãos Autárquicos de Cabeça atribuiram o seu nome à Avenida que parte do largo da Malhada na direcção do Casal do Rei.
Faleceu no dia 3 de Dezembro de 2004.

 

 

João Marques de Ascenção
-  Artesão

Nasceu na freguesia de Cabeça em 29-11-1925. Era conhecido por "João do Monte", dado ter feito a sua casa no alto do Seixinho. Foi motorista da CUF, em Lisboa, até se reformar. Depois de aposentado, regressou à terra natal, onde tinha uma praça de táxi. Com frequência, queixava-se do estômago, afirmando que já tinha sido "aberto e fechado" um sem número de vezes, em sucessivas operações cirúrgicas. Em entrevista ao jornal Porta da Estrela, nº 456, de 20.2.1997, confessava mesmo que tinha regressado à Cabeça "para morrer".

Homem dos sete ofícios, como ele se definia, tanto conduzia o táxi como assumia as funções de marceneiro ou até de pedreiro. Era muito criativo nas aplicações de xisto e decoração de espaços rústicos. Sem qualquer dificuldade, remodelou a sua própria vivenda, no Seixinho, e a taberna do Manuel Garcia, no Largo de Santo António. "Para se entreter", como ele dizia, até fez as portas, tectos, móveis e persianas da sua casa! Artesão muito inspirado e sabedor, chegou a construir o tablier do painel de instrumentos do seu automóvel, facto que era muito comentado.

Foi, precisamente, na área do artesanato que ele se distinguiu nos últimos anos de vida. Na oficina da sua garagem, dedicava-se à construção de belíssimas peças artesanais de madeira, com destaque para as miniaturas religiosas. Trabalhando a madeira, produzia candeeiros de parede, estatuetas da justiça, pastores, igrejas, altares, relógios, balanças, etc. Com o decorrer do tempo, acumulou uma grande colecção. Depois de muito incentivado pelos amigos, acabou por acatar os repetidos convites da Associaçao de Artesãos da Serra da Estrela, participando em variadíssimas exposições, nomeadamente na FIAGRIS. Grande comunicador, crítico da sociedade, indignava-se com o facto de se "darem subsídios a quem não trabalha, nada recebendo as pessoas que podiam dar mais riqueza ao país". Raramente vendia as suas peças, por entender que as pessoas não lhe pagavam o trabalho que tinha.

Após o falecimento, a Junta de Freguesia de Cabeça adquiriu todo o espólio das suas peças de artesanato, salvaguardando este simbólico património e mantendo-o exposto em local público da povoação.

 
Atelier e peças de artesanato

 

Maria Rita de Jesus
-  A enfermeira do povo

Nasceu na freguesia de Cabeça em 12-10-1885. No recenseamento de Nov/1975, ainda era viva. Faleceu pouco tempo depois. Era conhecida por senhora “Maria do Meio”, dado habitar numa casa situada no centro do povo. Apesar de não ter estudos académicos na área da medicina, era possuidora de um conhecimento empírico notável nas áreas da ortopedia e da obstetrícia, com base na experiência e na observação. Deste modo, assistia gratuitamente o parto das mulheres da aldeia com notável mestria e segurança. Se pensarmos no isolamento a que a população de Cabeça estava votada, privada de acesso automóvel e longe de qualquer unidade hospitalar, podemos avaliar quão preciosa foi a função social desta mulher no que toca aos cuidados de saúde.

Na área da ortopedia, tinha a rara capacidade de saber tratar fracturas, luxações, entorses, traumatismos, músculos e tendões. Tinha, ainda, um vasto conhecimento de ervas medicinais. A sua fama era tal que chegou a ser procurada por profissionais da saúde, para tratar das suas mazelas. Os seus serviços eram solicitados diariamente por muita gente das povoações vizinhas, com especial destaque para a vila de Loriga, onde era muito estimada.

Esta bondosa senhora era a “enfermeira do povo”, a todos acudindo com destreza e sabedoria, nada exigindo em troca. Quem não se lembra da senhora “Maria do Meio” ? Entretanto, os Órgãos Autárquicos da freguesia atribuiram o seu nome à Rua qua vai do largo da Malhada até ao Cabeço.

 
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